segunda-feira, 21 de junho de 2010

" E assim vai Saramago para o céu"

Muito se disse, outro tanto se escreveu, estes últimos dias sobre Saramago.
Registei, por particularmente interpelante, e aqui quero citar, um artigo de opinião do Expresso, de sábado passado, da autoria de Henrique Monteiro:
(...)
Embora ele não queira estou certo de que irá para o céu.
Deus, se é o Todo Poderoso,não há-de permitir que um homem destes habite longe dele. Como a de um pequeno deus, também a obra de Saramago perdurará no tempo, per omnia seculorum, enquanto houver quem goste de uma grande ou pequena história com uma boa e honesta moral.
Não nego que escreveu coisas que me chocaram.
A mim também. Até nem quis ler " Caim"... Não por preconceito, muito menos por reverência à ortodoxia, mas apenas porque era já perceptível que esta seria uma das suas derradeiras obras e eu queria guardar para mim as emoções que me provocaram a leitura de "O Memorial do Convento" " O Ano da Morte de Ricardo Reis" "Todos os Nomes"e "Ensaio Sobre a Cegueira", quase como quem recusa ver alguém que já morreu, porque quer conservar apenas a imagem da vida e do melhor dela.
E Manuel Monteiro continua:
Acho que escreveu que "Deus é um filho da puta".Pois bem, enganou-se. Se é omnisciente, Deus nem liga a insultos, pois estão fora do âmbito do seu entendimento. E na sua bondade e perdão infinito vai dizer-lhe que também gostou de alguns livros ( e aqui eu e Henrique Monteiro só coincidimos num, mas até é bom, que Saramago não era homem de consensos... )
E conclui o director do Expresso:
E assim irá ele para o céu, para perto de Deus, onde habitam os imortais.Os da literatura e os das outras artes, sejam quais forem.
Porque o tempo da verdadeira arte é infinitamente maior que o tempo dos homens. E o tempo de Deus é incalculavelmente superior a todos os outros tempos.
Ao fim e ao cabo, as polémicas agitam águas que não tardam em se acalmar. Mas fica a arte. Tal como fica Deus.
Que bela lição de tolerância e compaixão cristã!

A Mãe

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